Artigo Traduzido
Desordens têmporo-mandibulares e ciência: Uma resposta aos críticos
Charles
Greene*, Norman Mohl, Charles Mcneill, et al
*
Diretor do centro de estudos de dor Orofacial da Universidade de Illinois -
Chicago
The
Journal of Prosthetic Dentistry (vol. 80, n 2, p. 214-15 / 1998)
Tradução originalmente publicada no site Gedor Virtual (www.dororofacial.hpg.com.br)
O diagnóstico e tratamento das Desordens Têmporo-Mandibulares
(DTMs) têm sido um assunto controverso desde que apareceu pela primeira vez na
literatura. O debate sempre foi acalorado mas nem sempre muito espirituoso. A
maioria das discussões ocorreu entre proeminentes clínicos (e seus
seguidores), cada um deles apoiados em diferentes conceitos sobre o que seria
errado sobre pacientes com DTMs e o que deveria ser feito sobre isso. Além
disso, várias especialidades como a prótese, ortodontia e cirurgia oral
desenvolveram suas próprias idéias sobre causas e terapias para DTMs. Quando
os primeiros estudos acadêmicos apareceram entre 1960 e 1970, aconteceram
alguns conflitos inevitáveis pois as pesquisas desafiaram alguns conceitos e
tratamentos tradicionais.
Lamentavelmente, as discussões acadêmicas
sobre DTMs, diminuíram em tempos recentes e foram substituídas por uma nervosa
retórica de um grupo criticando o outro. Na maioria das áreas da odontologia e
medicina o fato de os achados de pesquisas significativas contradizerem
conceitos prévios eventualmente levaria ao abandono destas crenças tanto por
pesquisadores quanto por clínicos. Esta conversão poderia levar algum tempo,
mas se as evidências fossem substanciais, ela prevaleceria e todos caminhariam
em uma nova direção. Infelizmente o campo das DTMs parece uma daquelas áreas
em que uma transição pacífica não ocorre, e as razões p/ isso incluem um número
angustiante de posturas antiacadêmicas por alguns membros da comunidade clínica.
Essencialmente, eles argumentam que os relatos sem embasamento das experiências
coletivas dos clínicos são mais válidos do que os achados de pesquisa que
parecem contradizê-los.
Não é o propósito deste breve artigo revisar
todas acusações e contra-acusações associadas com essa disputa. Ao invés,
gostaríamos de apelar para o bom senso da maioria silenciosa dos clínicos que
não têm nenhum interesse especial neste desagradável negócio, mas que são
afetados por sua exposição à essa disputa toda vez que pegam jornais, vão a
conferências, ou lêem artigos sobre o tema. Os artigos, ou palestras que
atacam o Instituto Nacional de Saúde (NIH) por patrocinar certos tipos de
estudos em dor orofacial, ou por publicar algum panfleto dobre DTMs que eles não
gostem, ou por conduzir conferências de consenso nacional nesta importante matéria,
são responsáveis por sabotar o respeito que essa agência merece.
Paralelamente, aquelas opiniões escritas ou faladas que descrevem a comunidade
acadêmica de DTMs como professores de torres de marfim e cientistas
comportamentais (em oposto aos verdadeiros clínicos de dedo-molhado) só podem
encorajar os teimosos membros da comunidade praticante a resistir às mudanças.
É importante lembrar que a maioria dos acadêmicos de DTMs estão continuamente
envolvidos em atendimentos direto aos pacientes com DTMs complexas e outras
dores orofaciais em clínicas de dor de universidades.
Muitas das críticas à cirurgia tradicional,
ou às terapias de reposicionamento mandibular p/ tratamento de DTMs, vieram de
estudos de curto e longo prazo, e a maioria delas mostrou que esses métodos são
excessivos em termos de agressividade e irreversibilidade. É claro, isto
implica que ambos custos, físico e financeiros, para estes paciente também é
excessivo, especialmente quando tantos estudos de tratamentos de DTMs, têm
demonstrado os poderosos efeitos de placebos e excelentes respostas a vários
tratamentos conservadores. Entretanto não seria de surpreender que os advogados
dos procedimentos agressivos pudessem sentir-se atingidos financeiramente pelo
vislumbre de ver seus métodos se tornarem obsoletos como resultado destas
pesquisas. Por outro lado, não seria surpreendente que eles resistissem a mudar
seus métodos porque eles sinceramente se impressionaram em ver tantos casos de
aparentes sucessos clínicos durante um período de anos. O sucesso no
tratamento de pacientes com DTMs é muito comum, e este tipo de experiências
positivas reforçam as convicções do clínico de que seus métodos de
tratamento são válidos. Infelizmente , não se cita a participação do efeito
placebo, as remissões espontâneas ou as flutuações cíclicas, deixando sem
comentário a parte sobre tratamento excessivo. Poucas coisas são mais
gratificantes p/ os doutores do que ver seus pacientes melhorarem, mesmo que
suas compreensões de melhora sejam incompletas ou imperfeitas.
A história da ciência médica do século XX
é recheada destes exemplos de dissonância cognitiva ocorrendo entre todos os
tipos de praticantes médicos quando resultados negativos de pesquisas são
descritos sobre conceitos ou procedimentos familiares. Estes sentimentos são
compreensíveis, mas no fim esta é a meta do progresso científico real: ambos
pesquisadores e clínicos tem que estar preparados para abandonar algumas de
suas teorias favoritas e procedimentos, de tempos em tempos durante suas
carreiras. O mais importante é que membros de ambos os grupos devem caminhar em
direção ao futuro o mais pacificamente possível ao invés de atirar tijolos
nos opositores. Além do mais, em um nível pessoal, dentistas e seus familiares
esperam receber o melhor tratamento, baseado em evidências, de seus próprios
doutores, e nossos pacientes têm o direito de esperar o mesmo de nós.
No campo das DTMs, pesquisadores têm
trabalhado por mais de 30 anos em vários estudos de ciência básica e clínica,
e têm-se conseguido uma quantidade considerável de aceitação na maioria dos
estudos. Recentemente um excelente resumo das posições correntes de consenso
na área de tratamento das DTMs foi oficialmente adotado pela Associação
Americana de Pesquisa Odontológica (AADR), e foi publicada como uma Declaração
de Informação Científica. A declaração é reproduzida à seguir:
"A AADR reconhece que DTMs compreendem um
grupo de condições esqueléticas que envolve a articulação ou as articulações
têmporo mandibulares (ATMS), os músculos mastigadores, ou ambos. As conseqüências
destas desordens podem levar a dificuldades em mastigar e outras disfunções
orais como dor aguda ou crônica, ausência ou impedimento de interações
sociais ou do trabalho, e redução geral na qualidade de vida.
Baseado em evidências a partir de
ensaios clínicos
I.
É recomendado que o diagnóstico diferencial das DTMs, ou dores
orofaciais relacionadas incorporem informação obtida da história do paciente,
exame clínico, e, quando indicados, pedidos de imagens das ATMs ou outras
estruturas. A escolha dos procedimentos a serem executados deve estar baseada em
publicações, periodicamente revisadas quanto aos dados mostrando eficácia
diagnóstica. Os testes diagnósticos que poderão ser comprovados em pesquisas
científicas futuras p/ mostrar sua especificidade e sensibilidade requeridas p/
separar pacientes normais de pacientes com DTMs, ou p/ distinguir entre
subgrupos de DTMs, podem se utilizados. O uso de testes não provados ou
aparelhos podem apresentar riscos p/ clínicos e pacientes em achar os diagnósticos
falso-positivos ou falso-negativos.
II.
É insistentemente recomendado que, a não ser que haja indicações
específicas e justificadas em contrário, o tratamento seja baseado no uso de
modalidades terapêuticas reversíveis. Enquanto terapias não específicas tem
provado não ser uniformemente efetivas, muitas das modalidades conservadoras
tem conseguido, pelo menos, um alívio paliativo nos sintomas e sem provocar
nenhum dano. "
Para concluir, nós só podemos esperar que clínicos
razoáveis sejam capazes de escolher através destas controvérsias no campo das
DTMs, da mesma forma como eles fizeram no passado. Por entender estas desordens
em um modelo biopsicosocial, evitando pensamentos e tratamentos mecanicistas, e
especialmente tratando nossos pacientes com terapias conservadoras e
cientificamente válidas. Todos nós, na área odontológica podemos fornecer um
serviço valioso às pessoas que realmente contam: Pacientes com DTMs e suas famílias.