Entrevista: Sebastião Interlandi

 

O professor Interlandi, um dos grandes nomes da Ortodontia, é ex-Chefe e Professor Titular do Departamento de Ortodontia e Odontopediatria da USP - São Paulo; coordenador das cinco edições do livro "Ortodontia - Bases para a iniciação"; Professor dos cursos de Ortodontia da “Unitau” e do CEEO “Campus Avançado de Bragança Paulista”;  "Master of Science" pela Universidade de Saint Louis - EUA;  primeiro presidente eleito da "Associación Latino Americana de Ortodóncia" e  integra o Grupo de Assessores, no Brasil, da Middlesex University (Inglaterra)

contato Prof. Interlandi

O.R- O Sr. conheceu pessoalmente, vários dos grandes nomes da Ortodontia mundial. Quais destes profissionais mais o impressionaram, e por quê?

Prof. Interlandi -  Os grandes nomes da Ortodontia, são vários, e de diversos países. Os meus contatos pessoais me autorizam a lembrar dois nomes, um do passado: Charles Tweed, e o segundo, do presente: Lawrence Andrews. O primeiro representou uma reviravolta  histórica, principalmente na década de 40, quando os critérios de extrações, preparo de ancoragem e a “correta” colocação dos dentes nos ossos basais, se constituíram em novas pilastras a caracterizarem os níveis técnicos e culturais de nossa especialidade. Por mais de 30 anos, a contribuição de Tweed teve o mérito de criar uma mentalidade abrangente, levando a todos os países do mundo ocidental um novo conceito que atuou como consolidação da Ortodontia, acadêmica e profissionalmente. A evolução da pesquisa e da experiência clínica tem alterado a chamada “filosofia tweediana”, sem, no entanto, desvincular do processo histórico, os méritos inexcedíveis daquele grande mestre.

    Lawrence Andrews é o nome que estará para sempre, na mente dos que pretendem aprofundar-se no campo da oclusão dentária, pois, aprenderão que o trabalho “as seis chaves para uma oclusão correta” constitui-se num insubstituível ponto de partida. Após sua publicação na década de 70, a ortodontia revigorou-se, inaugurando os principais temas que nos levou a conhecer múltiplas facetas de pesquisa em odontologia. Graças àquele autor, enriqueceu-se a comunidade ortodôntica, com o surgimento de aparelhagens e técnicas precisas, propiciando correções com melhores qualidades de finalização. 

O.R-     Falemos de Diagnóstico: o Sr. preconiza a montagem dos modelos em articulador, em todos os casos? Se não, qual o critério na seleção dos casos?

Prof. Interlandi — Embora ciente da primeira alternativa, isto é, montagem de todos os casos, em articulador, situo-me numa responsabilidade mais branda, montando somente diante de sinais,  sintomas ou alterações que me autorizem a pensar em possíveis DTM (distúrbios têmporo-mandibulares).

 O.R-     Que análises cefalométricas e/ ou faciais, o Sr. utiliza mais rotineiramente?

Prof. Interlandi — O tempo de vivência clínica permite, no meu entender, a opção de se identificarem cefalometricamente, setores dento-faciais afastados de um equilíbrio morfológico e dimensional desejável. Assim, as análises cefalométricas constituem-se num conglomerado de valores numéricos e aspectos estéticos à disposição do ortodontista, que terá a liberdade de “peneirar” com resultados satisfatórios, os diversos itens para a consecução da análise a ser empregada.

O.R-     Quanto ao planejamento, como o Sr. define a posição ideal final dos incisivos?

Prof. Interlandi — Por formação, sou tweediano, e nesse particular, não tenho dúvidas em me manifestar pelo velho estribilho ortodôntico que afirma deverem os dentes ser “verticalizados sobre o osso basal”. Mais precisamente, para os incisivos superiores, defino-lhes a posição final ântero-posterior, de acordo com a análise do perfil tegumentar, segundo o que, no “gráfico vetorial”, denominei “proposta cefalométrica superior”. Quanto aos incisivos inferiores, devem simplesmente, exibir correta articulação com os superiores, o que denominei, também no gráfico, “acerto cefalométrico inferior”.  

O.R-     Análises que avaliam e quantificam a movimentação proposta, como a Análise de Unidades de Espaço de Andrews e o Gráfico Vetorial Ortodôntico, desenvolvido pelo Sr., são uma excelente ferramenta na planificação do tratamento, mas muitos profissionais não as utilizam. Na sua opinião, por quê isto ocorre?

Prof. Interlandi — Nesta resposta, permito referir-me somente ao “Gráfico Vetorial Ortodôntico”, como, no seu dizer, “excelente ferramenta na planificação do tratamento”. Pela experiência que tenho na ministração de inúmeros cursos a respeito, formulo uma única observação contida no rodapé de minha última publicação sobre o gráfico: “O desenvolvimento teórico ou escrito, de qualquer planificação de tratamento ortodôntico, não prescinde de extenso período de tempo. Isto permite seja cumprida a tarefa de levar ao leitor, a exposição minuciosa e detalhada de uma proposta (de natureza inédita) como a expressa acima. Tal circunstância poderá ter o mérito de pôr de relevo, complexidades devidas unicamente à extensão do texto, o que se atenua de imediato, após leitura atenta, seguida da necessária aplicação prática”. Acredito que a inobservância desse último item possa responder sua pergunta. 

O.R-     Falemos de tratamento. O Sr. utiliza bráquetes pré-ajustados? De qual  filosofia/prescrição?

Prof. Interlandi — Sigo no momento, a prescrição do Dr. Roth, com modificações menores. 

O.R- Até qual fio, quanto à sua espessura / material, pode-se utilizar arcos pré-contornados sem comprometer o formato e as dimensões transversais originais do arco do paciente?

Prof. Interlandi — Acredito que os arcos “Niti” .012, 014, e 016 não têm carga de deflexão que modifique substancialmente distâncias transversais entre arcadas, ou o raio de curvatura anterior. Os arcos de maiores espessuras, certamente, poderão interferir naquelas dimensões.

 O.R- Quais formatos de arcos pré-contornados o Sr. utiliza?

 Prof. Interlandi — Tenho sempre a preocupação de empregar os arcos (pré-contorneados ou não) de acordo ou próximos do diagrama individual que faço para cada paciente. Lembro aqui, da necessidade obrigatória de que sejam providenciadas pelos fornecedores, coleções mais numerosas de diagramas de contorneamento, com variabilidade de dimensões mais adequadas. 

O.R- Qual a sequência de fios que o Sr. preconiza?

Prof. Interlandi — A sequência de fios é uma necessidade individual de cada caso, muito embora a preconizada por Andrews seja uma prescrição considerada padrão.

 O.R- No fechamento do espaço das extrações, o Sr. faz retração em bloco ou se utiliza da retração de caninos prévia à retração de incisivos? Quais os critérios nesta escolha?

Prof. Interlandi — Normalmente, faço a retração anterior (caninos e incisivos) com os arcos de dupla chave, embora eventualmente (e raramente), possa retrair por deslizamento, os caninos em primeiro lugar, sempre observando a leis das 10 horas.

O.R- O Sr. utiliza Aparelhos Ortopédicos Funcionais? Quais os critérios na escolha dos casos e quais os aparelhos de sua preferência?

 Prof. Interlandi — Longe de pretender endereçar qualquer crítica à Ortopedia Funcional, como norma de trabalho, pessoalmente, evito seu emprego, muito embora use com constância, aparelhos de ortopedia mecânicos.

O.R- Quais os dispositivos de sua preferência para distalização molar?

Prof. Interlandi — Evito, tanto quanto possível, a distalização de molares, contornando este problema com extrações, mecânicas intrusivas, blocos de mordida, ancoragem extra-bucal ortopédica, ou mesmo cirurgia ortognática, como são preconizados na técnica de Roth.

O.R- Quais os dispositivos de sua preferência, para controle de ancoragem?

Prof. Interlandi — Ancoragem é um termo complexo, em ortodontia, sempre a merecer conotações segundo as particularidades de cada caso. Porém, se a intenção da pergunta for relacionada aos molares superiores, então me permito citar o que é conhecido internacionalmente, como IHG (citado na resposta anterior como “ancoragem extra-bucal ortopédica”).

 O.R- Como o Sr. vê a separação da Ortodontia e Ortopedia Funcional em duas especialidades distintas?

 Prof. Interlandi — Lamento que no Brasil, onde a liderança ortodôntica e ortopédica sejam das mais ilustres e legítimas, tenha havido um inegável desentendimento, levando à oficialização de uma parte que nunca deveria ser confundida com o todo.

O.R- Na sua opinião, o que aconteceu de melhor e pior na Ortodontia nos últimos 10 anos?

Prof. Interlandi De melhor: a inegável preferência da ortodontia, no Brasil, como especialidade de escolha.  De pior: a avalanche de pseudo-especialistas na área ortodôntica, a “montar”clínicas, desprovidos das mínimas qualidades para a válida aceitação de um especialista.

 O.R- Como o Sr. vê o futuro da Ortodontia?

Prof. Interlandi     Entusiasticamente!